Fotografia, imagem e outros apelos artísticos auxiliam o tratamento de pacientes na rede hospitalar

Com atividades lúdicas e artísticas, o Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) proporciona momentos criativos aos pacientes para amenizar a espera e o tratamento.

Pinturas e fotografias estão entre as atividades artísticas desenvolvidas por meio do projeto Museu nos Hospitais, uma iniciativa do Museu da Fotografia

Poucas situações tiram o sossego de um adulto minimamente sensível como a dor de uma criança. Acompanhar os pequenos quando estão doentes é oportunidade, para os pais e demais responsáveis pela infância, de experimentar empatia e conhecer a própria resistência diante de situações-limite. No sentido de aliviar essa vivência, o casamento entre a arte e os tratamentos de saúde tem crescido e se tornado um lugar comum dentre os espaços terapêuticos e de atendimento médico.

O projeto Museu nos Hospitais, que teve início no último mês de março, se insere nesse contexto delicado. Por meio dele, educadores do Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) apresentam imagens, pintura, dentre outras linguagens artísticas nas tardes de terça a sexta-feira, aos pacientes atendidos pelos diversos setores do Hospital Infantil Luís França (Centro).

A partir desta semana, a ação se expandiu para outro espaço de saúde na Região Metropolitana de Fortaleza: o hospital Ana Lima, em Maracanaú (CE). Em julho, mais uma unidade de saúde será atendida. O projeto acontece em parceria com o plano de saúde Hap Vida e procura, basicamente, estimular o contato entre as crianças, a imagem e outras artes, de forma lúdica . “As oficinas aqui são voltadas para imagem e fotografia, mas a gente também relaciona com outras linguagens artísticas. É uma ação arte-terapêutica. Além de distrair as crianças nas salas de espera, dentre outros locais de atendimento no hospital, ajuda a desenvolver a criatividade”, situa Keli Pereira, coordenadora do Núcleo Educativo do MFF.

Os educadores circulam pelo hospital e envolvem pequenos pacientes, em diversas situações de atendimento, a exemplo das salas de triagem e enfermarias. Algumas estão internadas, outras aguardam consultas de rotina. “Tem crianças tomando medicação, outras na internação. Algumas só estão esperando serem atendidas, então a gente faz alguma atividade mais rápida”, detalha Keli.

Segundo a educadora, integrar arte e saúde é algo que “anda bem junto” e traz qualidade de vida para todos os envolvidos no tratamento infantil: a criança, os adultos responsáveis e a equipe médica.

Oncologia

Júlia Cunha, enfermeira do setor de oncologia do Luís França, tem impressão similar e olha para os benefícios da ação entre seus pacientes, as crianças com câncer. Ela observa que, durante a internação, os pequenos se ausentam da rotina escolar e as atividades artísticas compensam, em parte, a perda temporária dessa interação.

“Com a quimioterapia, elas ficam sem imunidade pra frequentar a escola. Nem toda mãe tem a iniciativa de pegar um desenho e interagir com o filho. Então, a atividade do Museu acaba resgatando o sorriso delas, a comunicação, o colorido”, detalha Júlia.

A enfermeira reflete que a intervenção artística alivia a tensão que existe no ambiente de internação. “E a criança sente muito tudo isso. A gente mente se disser que não sente. O câncer é uma doença grave, é quimioterapia. Se exige muito dos pacientes. Mas com a arte, a gente vê elas mais felizes, mesmo na dificuldade”, observa.

Iniciação

Numa das salas de espera do Luís França, Thalya Mendes, de apenas 6 anos, viu uma máquina de fotografia digital pela primeira vez. Antes, ela só havia experimentado tirar fotos no celular e, com toda a sinceridade peculiar à infância, declara à reportagem como gosta de fazer fotografia. “E eu também gosto de pintar, qualquer coisa”, resume.

Dividido entre a mesma máquina fotográfica e a pintura de desenhos de animais, paisagens, dentre outras figuras, Adriel Pereira, 6, observava que “fiz umas fotos aqui, que a tia (uma das educadoras do Museu) me pediu. Também pinto todo tipo de coisa, aqui e na escola”, descrevia o menino, concentrado nas atividades artísticas. “Ele é doido por arte. Diz que vai ser artista”, complementa a mãe, Karine Pereira (27).

Além de amenizar o fardo do hospital dentre os pacientes infantis, a ação do MFF, para Anderson Nascimento, superintendente da rede hospitalar do Hap Vida, pode ter desdobramentos na vida das crianças além do ambiente terapêutico.

“Quando você tira o foco da internação, e traz elas pra imaginação, pro sonho, isso tem muitos benefícios. Se criam vários horizontes na vida dessa criança, a partir de um momento de dor pra ela”, reflete.